sexta-feira, 25 de julho de 2014

Ancestralidade Africana

EMEF Altina Ana da Conceição

“ (...) Todo amanhã se cria num ontem, através de um hoje (...).
   “Temos de saber o que fomos para saber o que seremos.”

Sabias são as palavras do educador Paulo Freire e também a inspiração da EMEF .... Localizada na Comunidade Quilombola da Ingazeira  em participar deste projeto apresentando a ancestralidade africana  a que muito tem a nos dizer  a saber que:  No Brasil, uma das matrizes que informam a tradição oral diz respeito às influências dos africanos aqui escravizados que para cá vieram, guardiões e guardiãs responsáveis por recriar a memória dos fatos e feitos de seus antepassados, resinificando a vida nos novos lugares de morada. Foram também poetas, músicos, dançarinos, estudiosos, mestres, conselheiros, denominados, de modo geral como contadores de histórias.

Baobá, a árvore do esquecimento

Diz a lenda que antes de serem embarcados nos navios negreiros, os escravizados africanos, sob chibatadas, eram obrigados a dar dezenas de voltas em torno de um imenso baobá – também chamado de embondeiro, em alguns países –, enquanto negavam seus nomes, suas crenças, suas origens, seu território, enfim, sua essência, para em seguida serem batizados com uma identidade cristã-ocidental e enviados para o cativeiro. Por isso, o baobá passou a ser chamado de a “árvore do esquecimento”, afinal, os “esquecidos” teriam deixado depositadas ali, no tal baobá, suas verdadeiras identidades e memórias.

Após darem as diversas voltas na lendária arvore os negros e negras lotavam os porões dos navios negreiros numa viagem infernal como declamou Castro Alves no seu Navio Negreiro:

São os filhos do deserto,  
Onde a terra esposa a luz. 
Onde vive em campo aberto 
A tribo dos homens nus... 
São os guerreiros ousados 
Que com os tigres mosqueados 
Combatem na solidão. 
Ontem simples, fortes, bravos. 
Hoje míseros escravos, 
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

Vindos dos principais portos africanos : Luanda, Benguela , Cabina e Benim, ao chegar aqui estes africano reconstruí o continente africano em terras brasileiras . Os estados  Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul , Recife e Bahia este último o mais representativo de todos  os estados.
A Embora não haja até o momento nenhum registro ou pesquisa que possa indicar com exatidão quando os negros chegaram a essa região, o certo é que a contribuição destes para formação socioeconômica e cultural do Baixo sul da Bahia e visível. O fato é que de forma lenta e gradual os negros aportaram por aqui, como discorre Antonio Risério (2003, p. 140) “a não ser por raros desembarques, os negros demoraram um pouco a chegar no litoral sul [da Bahia], e nunca chegaram aqui massivamente, como ocorreu na Bahia de Todos os Santos”

Negros - Imagem Ilustrativa | www.diariodaliberdade.org

As observações de Risério indicam ainda que como em outras regiões do país, aqui também houve resistência ao sistema escravista, argumentando que   a região da Bahia que mais proliferou a formação de quilombos foi a dos distritos sulinos de Cairu, Camamu e Ilhéus. Atualmente no Estado da Bahia são 258 comunidades Remanescentes Quilombolas, no território do Baixo Sul encontram-se mais de 40 dessas comunidades, em Ituberá, são cinco as comunidades até o momento certificadas pela Fundação Cultural Palmares, a saber: A comunidade de Lagoa Santa e Ingazeira, certificadas em 2005; Brejo Grande e São João de Santa Bárbara em 2006 e a Comunidade dos Cágados  em 2007.

Líderes da Comunidade do Quilombo da Lagoa Santa

Líderes da Comunidade do Quilombo da Ingazeira
Tais comunidades se caracterizam como remanescentes quilombolas por consistirem em grupos que desenvolvem praticas cotidianas de resistência na manutenção e reprodução dos seus modos de vida característicos e na consolidação de um território próprio. De acordo o Antropólogo e Historiador José Maurício Arruti (2006) essas comunidades representam uma categoria social relevante no meio rural brasileiro, dando nova tradução àquilo que era conhecido como comunidades negras rurais e remetem, em regra – não exclusivamente –, ao período da escravidão, ou seja, muitas delas têm a sua origem no pós-abolição, o que parece ser o caso das comunidades aqui do Município de Ituberá.

Essas comunidades utilizam as terras por elas ocupadas para a garantia de sua reprodução física, social, econômica e cultural. Encontram-se viva nelas praticas culturais que evidência a ancestralidade negra desses grupos, a exemplo do Samba de Roda e Marinheiro, onde homens e mulheres dançam e cantam numa coreografia empolgante, em que as mulheres sambadoras parecem flutuar ao som dos instrumentos em muitos casos – mas não unicamente – confeccionadas artesanalmente, e das chulas e quadras entoadas por todos.

Terno de Reis da Lagoa Santa

Um bom exemplo das raízes ancestrais dessas comunidades com a mãe África é o relato do major Dias de Carvalho apud Edison Carneiro ao descrever esse tipo de dança de roda em Luanda:


A dança é sempre de roda, e ao centro dela estão os tocadores de um, dois e três, e às vezes mais instrumentos de pancada... O passo é quase sempre o mesmo, variando em ser mais ou menos apressado conforme o andamento da música. Ginga-se mais ou menos também o corpo, andando-se sempre em roda, mudando-se de posição segundo as danças. Os cantos são sempre melodiosos (1982, p. 30).


Destacam-se ainda como patrimônio cultural nessas comunidade, as brincadeiras de roda, configurando-se como um dos mecanismos de lazer para as crianças. As Comunidades Remanescentes de Quilombos são exemplos de resistência e luta na preservação dos seus valores culturais, esses permanecem vivos na memória dos habitantes dessas comunidades e se expressam através da oralidade (TEIXEIRA, 2009), onde manifestações culturais, praticas religiosas, modos de produção e de sociabilidade são transmitidas de geração a geração.

Ilê Ayê -  O primeiro bloco afro do Brasil 


Referências:

SILVA, Egnaldo Rocha. Ituberá: breve histórico. Ituberá-BA. Texto escrito a pedido da Sec. de Cultura e Turismo, 2011.

REVISTA KAWÉ. Universidade Estadual de Santa Cruz- UESC, Núcleo de Estudos Afro- Baianos Regionais. Ilhéus- Ba , Editora Editus 2011.

Poema:

Navio Negreiro (Castro Alves)

Nenhum comentário:

Postar um comentário